A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
Segredo
terça-feira, 3 de março de 2009
Marcadores: POESIAS
Grandes autores da literatura infantil
Charles Perrault (1628-1703)
Contemporâneo do fabulista gaulês La Fontaine, Charles Perrault sempre viveu em Paris e morreu aos 75 anos. O poeta da Academia Francesa não atuou exclusivamente no mundo das letras. Além de trabalhar como advogado, tornou-se superintendente de construções do Rei Sol Luís XIV, posição política em que se destacou ao lado do ministro Colbert.
Membro da alta burguesia, Perrault foi imortalizado por criar uma literatura de cunho popular que caiu no gosto infantil e contou também com a aprovação dos adultos. Com pouco mais de 50 anos, trocou o serviço ativo pela educação dos filhos. Movido por esse desejo, começou a registrar as histórias da tradição oral contadas, principalmente, pela mãe ao pé da lareira.
Com quase 70 anos, publicou um livro de contos conhecido, na época, como "contos de velha", "contos da cegonha" ou "contos da mamãe gansa", sendo o último o título por que ficou conhecida a obra em todo o mundo. A primeira edição, de onze de janeiro de 1697, recebeu o nome de "Histórias ou contos do tempo passado com moralidades", que remete à famosa moral da história presente ao final de cada texto.
Com redação simples e fluente, as histórias eram adaptações literárias que traziam ao final conceitos morais em forma de verso. Essa perspectiva promove, desde a fase inicial, na chamada literatura infantil a existência de um teor pedagógico associado ao lúdico.
Os "Contos da mamãe gansa" se constituem de uma coletânea de oito histórias, posteriormente acrescidas de mais três títulos, ainda que num manuscrito de 1695, só encontrado em 1953, constassem apenas cinco textos. Os contos que falam de princesas, bruxas e fadas trazem histórias que habitam até hoje o imaginário infantil como "A Bela Adormecida", "Chapeuzinho Vermelho", "Cinderela", dentre outros.
© 2005 - Todos os direitos reservados. Para cessão de direitos, entre em contato com infantil@graudez.com.br.
CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. "CHARLES PERRAULT (1628-1703)" [online]
Disponível na internet via WWW URL: http://www.graudez.com.br/litinf/autores/perrault/perrault.htm
Capturado em 3/3/2009
Marcadores: LITERATURA
Modalidades de textos infantis
Fábulas (do latim- fari - falar e do grego - Phao - contar algo)
Narrativa alegórica de uma situação vivida por animais, que referencia uma situação humana e tem por objetivo transmitir moralidade. A exemplaridade desses textos espelha a moralidade social da época e o caráter pedagógico que encerram. É oferecido, então, um modelo de comportamento maniqueísta; em que o "certo" deve ser copiado e o "errado", evitado. A importância dada à moralidade era tanta que os copistas da Idade Média escreviam as lições finais das fábulas com letras vermelhas ou douradas para destacar.
A presença dos animais deve-se, sobretudo, ao convívio mais efetivo entre homens e animais naquela época. O uso constante da natureza e dos animais para a alegorização da existência humana aproximam o público das "moralidades". Assim apresentam similaridade com a proposta das parábolas bíblicas.
Algumas associações entre animais e características humanas, feitas pelas fábulas, mantiveram-se fixas em várias histórias e permanecem até os dias de hoje.
- leão - poder real
- lobo - dominação do mais forte
- raposa - astúcia e esperteza
- cordeiro - ingenuidade
A proposta principal da fábula é a fusão de dois elementos: o lúdico e o pedagógico. As histórias, ao mesmo tempo que distraem o leitor, apresentam as virtudes e os defeitos humanos através de animais. Acreditavam que a moral, para ser assimilada, precisava da alegria e distração contida na história dos animais que possuem características humanas. Desta maneira, a aparência de entretenimento camufla a proposta didática presente.
A fabulação ou afabulação é a lição moral apresentada através da narrativa. O epitímio constitui o texto que explicita a moral da fábula, sendo o cerne da transmissão dos valores ideológicos sociais.
Acredita-se que esse tipo de texto tenha nascido no século XVIII a.C., na Suméria. Há registros de fábulas egípsias e hindus, mas atribui-se à Grécia a criação efetiva desse gênero narrativo. Nascido no Oriente, vai ser reinventado no Ocidente por Esopo (Séc. V a.C.) e aperfeiçoado, séculos mais tarde, pelo escravo romano Fedro (Séc. I a.C.) que o enriqueceu estilisticamente. Entretanto, somente no século X, começaram a ser conhecidas as fábulas latinas de Fedro.
Ao francês Jean La Fontaine (1621/1692) coube o mérito de dar a forma definitiva a uma das espécies literárias mais resistentes ao desgaste dos tempos: a fábula, introduzindo-a definitivamente na literatura ocidental. Embora tenha escrito originalmente para adultos, La Fontaine tem sido leitura obrigatória para crianças de todo mundo.
Podem-se citar algumas fábulas imortalizadas por La Fontaine: "O lobo e o cordeiro", "A raposa e o esquilo", "Animais enfermos da peste", "A corte do leão", "O leão e o rato", "O pastor e o rei", "O leão, o lobo e a raposa", "A cigarra e a formiga", "O leão doente e a raposa", "A corte e o leão", "Os funerais da leoa", "A leiteira e o pote de leite".
O brasileiro Monteiro Lobato dedica um volume de sua produção literária para crianças às fábulas, muitas delas adaptadas de Fontaine. Dessa coletânea, destacam-se os seguintes textos: "A cigarra e a formiga", "A coruja e a águia", "O lobo e o cordeiro", "A galinha dos ovos de ouro" e "A raposa e as uvas".
Contos de Fadas
Quem lê "Cinderela" não imagina que há registros de que essa história já era contada na China, durante o século IX d. C.. E, assim como tantas outras, tem-se perpetuado há milênios, atravessando toda a força e a perenidade do folclore dos povos, sobretudo, através da tradição oral.
Pode-se dizer que os contos de fadas, na versão literária, atualizam ou reinterpretam, em suas variantes questões universais, como os conflitos do poder e a formação dos valores, misturando realidade e fantasia, no clima do "Era uma vez...".
Por lidarem com conteúdos da sabedoria popular, com conteúdos essenciais da condição humana, é que esses contos de fadas são importantes, perpetuando-se até hoje. Neles encontramos o amor, os medos, as dificuldades de ser criança, as carências (materiais e afetivas), as auto-descobertas, as perdas, as buscas, a solidão e o encontro.
Os contos de fadas caracterizam-se pela presença do elemento "fada". Etimologicamente, a palavra fada vem do latim fatum (destino, fatalidade, oráculo).
Tornaram-se conhecidas como seres fantásticos ou imaginários, de grande beleza, que se apresentavam sob forma de mulher. Dotadas de virtudes e poderes sobrenaturais, interferem na vida dos homens, para auxiliá-los em situações-limite, quando já nenhuma solução natural seria possível.
Podem, ainda, encarnar o Mal e apresentarem-se como o avesso da imagem anterior, isto é, como bruxas. Vulgarmente, se diz que fada e bruxa são formas simbólicas da eterna dualidade da mulher, ou da condição feminina.
O enredo básico dos contos de fadas expressa os obstáculos, ou provas, que precisam ser vencidas, como um verdadeiro ritual iniciático, para que o herói alcance sua auto-realização existencial, seja pelo encontro de seu verdadeiro "eu", seja pelo encontro da princesa, que encarna o ideal a ser alcançado.
- Início - nele aparece o herói (ou heroína) e sua dificuldade ou restrição. Problemas vinculados à realidade, como estados de carência, penúria, conflitos, etc., que desequilibram a tranqüilidade inicial;
- Ruptura - é quando o herói se desliga de sua vida concreta, sai da proteção e mergulha no completo desconhecido;
- Confronto e superação de obstáculos e perigos - busca de soluções no plano da fantasia com a introdução de elementos imaginários;
- Restauração - início do processo de descobrir o novo, possibilidades, potencialidades e polaridades opostas;
- Desfecho - volta à realidade. União dos opostos, germinação, florescimento, colheita e transcendência.
Lendas (do latim legenda/legen - ler)
Nas primeiras idades do mundo, os seres humanos não escreviam, mas conservavam suas lembranças na tradição oral. Onde a memória falhava, entrava a imaginação para suprir-lhe a falta. Assim, esse tipo de texto constitui o resumo do assombro e do temor dos seres humanos diante do mundo e uma explicação necessária das coisas da vida.
A lenda é uma narrativa baseada na tradição oral e de caráter maravilhoso, cujo argumento é tirado da tradição de um dado lugar. Sendo assim, relata os acontecimentos numa mistura entre referenciais históricos e imaginários. Um sistema de lendas que tratem de um mesmo tema central constiruem um mito (mais abrangente geograficamente e sem fixação no tempo e no espaço).
A respeito das lendas, registra o folclorista brasileiro Câmara Cascudo no livro Literatura Oral no Brasil:
Iguais em várias partes do mundo, semelhantes há dezenas de séculos, diferem em pormenores, e essa diferenciação caracteriza, sinalando o típico, imobilizando-a num ponto certo da terra. Sem que o documento histórico garanta veracidade, o povo ressuscita o passado, indicando as passagens, mostrando, como referências indiscutíveis para a verificação racionalista, os lugares onde o fato ocorreu.
CASCUDO, 1978 , p. 51
A lenda tem caráter anônimo e, geralmente, está marcada por um profundo sentimento de fatalidade. Tal sentimento é importante, porque fixa a presença do Destino, aquilo contra o que não se pode lutar e demonstra o pensamento humano dominado pela força do desconhecido.
O folclore brasileiro é rico em lendas regionais. Destacam-se entre as lendas brasileiras os seguintes títulos: "Boitatá", "Boto cor-de-rosa", "Caipora ou Curupira", "Iara", "Lobisomem", "Mula-sem-cabeça", "Negrinho do Pastoreio", "Saci Pererê" e "Vitória Régia".
Nas primeiras idades do mundo, os homens não escreviam. Conservavam suas lembranças na tradição oral. Onde a memória falhava, entrava a imaginação para supri-la e a imaginação era o que povoava de seres o seu mundo.
Todas as formas expressivas nasceram, certamente, a partir do momento em que o homem sentiu necessidade de procurar uma explicação qualquer para os fatos que aconteciam a seu redor: os sucessos de sua luta contra a natureza, os animais e as inclemências do meio ambiente, uma espécie de exorcismo para espantar os espíritos do mal e trazer para sua vida os atos dos espíritos do bem.
A lenda, em especial as mitológicas, constitui o resumo do assombro e do temor do homem diante do mundo e uma explicação necessária das coisas. A lenda, assim, não é mais do que o pensamento infantil da humanidade, em sua primeira etapa, refletindo o drama humano ante o outro, em que atuam os astros e meteoros, forças desencadeadas e ocultas.
A lenda é uma forma de narrativa antiqüíssima, cujo argumento é tirado da tradição. Relato de acontecimentos, onde o maravilhoso e o imaginário superam o histórico e o verdadeiro.
Geralmente, a lenda está marcada por um profundo sentimento de fatalidade. Este sentimento é importante, porque fixa a presença do Destino, aquilo contra o que não se pode lutar e demonstra, irrecusavelmente, o pensamento do homem dominado pela força do desconhecido.
De origem muitas vezes anônima, a lenda é transmitida e conservada pela tradição oral.
Poesia
O gênero poético tem uma configuração distinta dos demais gêneros literários. Sua brevidade, aliada ao potencial simbólico apresentado, transforma a poesia em uma atraente e lúdica forma de contato com o texto literário.
Há poetas que quase brincam com as palavras, de modo a cativar as crianças que ouvem, ou lêem esse tipo de texto. Lidam com toda uma ludicidade verbal, sonora e musical, no jeito como vão juntando as palavras e acabam por tornar a leitura algo muito divertido.
Como recursos para despertar o interesse do pequeno leitor, os autores utilizam-se de rimas bem simples e que usem palavras do cotidiano infantil; um ritmo que apresente certa musicalidade ao texto; repetição, para fixação da idéias, e melhor compreensão dentre outros.
Pode-se refletir, acerca da receptividade das crianças à poesia, lendo as considerações de Jesualdo:
(...) a criança tem uma alma poética. E é essencialmente criadora. Assim, as palavras do poeta, as que procuraram chegar até ela pelos caminhos mais naturais, mesmo sendo os mais profundos em sua síntese, não importa, nunca serão melhor recebidas em lugar algum do que em sua alma, por ser mais nova, mais virgem (...)
© 2006 - Todos os direitos reservados. Para cessão de direitos, entre em contato com infantil@graudez.com.br.
CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. "ESTUDO DAS DIVERSAS MODALIDADES DE TEXTOS INFANTIS" [online]
Disponível na internet via WWW URL: http://www.graudez.com.br/litinf/textos.htm#Fabulas
Capturado em 3/3/2009
Marcadores: LITERATURA
A LÍNGUA PORTUGUESA E O FUTEBOL
segunda-feira, 2 de março de 2009
Prof. Luiz Gonzaga Pereira de Souza
Ao se deparar com este texto, o leitor, provavelmente, ficará curioso e, creio eu, desejará imediatamente saber de que se trata.
Quando estudo com os meus alunos análises SINTÁTICA e MORFOLÓGICA, costumo, para elucidar melhor a matéria e fazê-los compreender o assunto de uma vez por todas, aplicar uma analogia entre o funcionamento de uma equipe de futebol dentro de campo e o funcionamento das palavras dentro da oração. De que forma?
Acho melhor começar o assunto lembrando que o professor de português, ao aplicar exercícios ou provas, tem por hábito sublinhar um termo da oração e pedir ao aluno que identifique a sua função sintática.
Exemplo: O Brasil e a Venezuela são países da América do Sul.
Pergunta-se ao aluno: Qual a função sintática do termo sublinhado?
1. SUBSTANTIVO – A resposta está incorreta porque foi informada a classe gramatical da palavra e não a função sintática que o substantivo exerce na oração.
2. NÚCLEO DO PREDICATIVO DO SUJEITO. Aqui, sim, a resposta está correta porque identifica a função que o substantivo exerce na oração.
Trata-se de assunto simples. Fazer análise MORFOLÓGICA é informar a classe gramatical da palavra dentro da oração e, fazer análise SINTÁTICA é informar a função exercida por uma das classes gramaticais, dentro da oração. No exemplo supra, identificamos, pois, a função que o substantivo países, uma das dez classes gramaticais, exerce dentro da oração. Trata-se, pois, de duas coisas bem distintas, mas muito ligadas.
Por enquanto nada esclareci a respeito do futebol. Agora, sim, posso fazer a analogia a qual mencionei anteriormente, elucidando as dúvidas, da seguinte forma:
-
Um time de futebol de campo é composto de (11) onze jogadores. Cada jogador tem o seu nome de batismo ou apelido. Exemplo: Dida, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Roberto Carlos, Zé Roberto, Lúcio, Juan, Adriano, Kafu, Emerson.
Todos sabem que cada um dos profissionais tem uma função dentro do campo: goleiro, zagueiro, lateral, meio de campo, centro avante, etc.
Pode ocorrer que um dos jogadores exerça outra função, que não seja a sua, deixando, às vezes, de ser zagueiro para assumir a função de lateral.
-
Na gramática acontece algo muito parecido. Vejamos: As classes gramaticais, em Português, são em número de (10) dez. O nosso time possui, pois, um jogador a menos, não importa. Quais os nomes de nossos jogadores: substantivo, adjetivo, advérbio, conjunção, interjeição, preposição, numeral, pronome, verbo, artigo.
-
Cada um de nossos jogadores gramaticais podem, em campo, ou seja, na oração, desempenhar funções diferentes, como cada pessoa, no futebol. No exemplo dado, naquela oração mencionada acima, o substantivo países, nome do jogador = nome da classe gramatical, está jogando na posição de núcleo do predicativo. Agora, veja bem, o substantivo países (nosso jogador), na oração abaixo, recebeu outra função no campo, em nosso caso, na oração:
Ex.: Os maiores países da América do Sul são Brasil e Argentina.
Pergunta-se:
· Qual a função sintática da palavra destacada?
--> Resposta: núcleo do sujeito.
· A que classe gramatical ela pertence?
--> Resposta: substantivo.
Outros exemplos:
1. Os jogadores do Cruzeiro receberam uma boa recompensa do clube.
2. Você conhece todos os jogadores do Cruzeiro?
Pergunta-se:
· Qual a função sintática da palavra jogadores na primeira oração?
--> Resposta: Sujeito.
· A que classe gramatical ela pertence?
--> Resposta: substantivo
* * * *
· Qual a função sintática a palavra destacada na segunda oração?
--> Resposta: núcleo do objeto direto.
· A que classe gramatical ela pertence?
--> Resposta: substantivo
Assim sendo, o substantivo recebeu funções sintáticas diferentes nas duas orações, da mesma forma que um jogador pode receber funções diferentes em uma ou outra partida de futebol. Às vezes, quem sabe, o técnico muda a função do jogador em um jogo contra outro time. Não é verdade? Com o goleiro é mais difícil acontecer. Raramente ouvimos dizer que um goleiro tornou-se centro-avante.
Esta comparação tem como objetivo fazer com que os estudantes não confundam as funções sintáticas e morfológicas nas orações. Espero que você, meu atencioso leitor, tenha entendido a comparação e aprendido, definitivamente, a fazer a análise sintática e morfológica, promovendo a distinção entre uma e outra, conforme a comparação apresentada acima.
Um grande abraço.
Prof. Luiz Gonzaga
Marcadores: LINGUÍSTICA E LÍNGUA PORTUGUESA
Futebol: linguagem da paixão
Pesquisador da UNESP mostra a influência do futebol na linguagem do povo brasileiro e revela seu significado |
Por Thiago Nassa |
"A presença do futebol na cultura brasileira pode ser notada na linguagem do cinema, da música, do teatro, da dança, da literatura clássica, da prosa e até da poesia", conta o Rodrigues. No entanto, o aspecto mais fascinante do estudo é a criatividade mostrada pela linguagem do futebol. Na sua pesquisa, o professor conseguiu identificar cerca de 2 mil neologismos conceituais, cujos significados podem ser compreendidos pela maioria das pessoas. Paixão e guerra - "A paixão nacional conseguiu produzir uma linguagem única em sua forma de expressão, na qual predominam termos eróticos e militares", conta Rodrigues. Pela simbologia, se o gol é o orgasmo do futebol, a bola, com certeza, é a mulher desejada pelo jogador. Aliás, o jogador que apresenta bom desempenho em campo é aquele que tem intimidade com a bola, que sabe tocá-la até o gol. Não é à toa que a rede ganhou o apelido carinhoso de véu de noiva. Futebol é paixão, mas também é guerra. E na competição pela bola, vale tudo para atingir o gol antes do adversário. Criar táticas de jogo, estratégias de defesa, marcar o adversário, fazer barreira e mandar um torpedo são algumas das palavras que revelam esta simbologia. Sem limites - A criatividade da torcida, dos técnicos, dos jogadores e dos narradores de futebol extrapola os limites da imaginação. Nada melhor do que a palavra frangueiro para mostrar que o goleiro tem um mau desempenho. Assim como o termo olé serve para evidenciar lances de dribles com o intuito de provocar a torcida adversária. A linguagem do futebol também recebeu um tempero da culinária. O termo cozinhar, por exemplo, cai como uma luva para mostrar que o time está retardando deliberadamente o jogo. Assim como aperitivo é um apelido carinhoso para uma partida preliminar e carne assada, para um jogo amistoso. Às vezes, a palavra criada no meio futebolístico parece ter sido tirada da boca do povo. É o caso do termo deu zebra. Usado pelo técnico carioca Gentil Cardoso para qualificar um resultado imprevisto de um jogo, a expressão tornou-se de domínio público e passou a ser largamente empregada. "Provavelmente, o técnico foi buscar inspiração no jogo do bicho que utiliza quase todos os animais, menos a zebra", comenta Rodrigues. Já em alguns casos a interpretação do neologismo é praticamente impossível de ser feita por um leigo. É o caso do verbo pipocar. Quando um jogador evita confrontos com o adversário para não se machucar, a torcida diz que ele está saltando fora das jogadas que nem pipoca. Combate à gíria - O predomínio da gíria no futebol é tão forte que já houve quem tentasse criar um vocabulário específico para o esporte. O técnico Cláudio Coutinho, da seleção brasileira de 1968, pode ser considerado o precurssor desta tenmtativa de normatização. "Como ex-militar, Coutinho usava muitas expressões dessa área para criar novos conceitos de táticas de jogo", conta o professor. São criações dele, por exemplo, a expressão tanque, que qualifica um jogador forte, parrudo e atarracado. Na tentativa de acabar com a gíria, o técnico também foi buscar inspiração em outros idiomas. O jogador que não tem posição fixa no jogo, por exemplo, ganhou o nome de libero, palavra de origem italiana que significa livre. É dele também a expressão jogo aéreo, criada com o intuito de substituir o popular chuveirinho, nome dado à bola levantada que entra pingando no campo. "Apesar desta tentativa, a linguagem do futebol não se submete a normas. Pode incorporar frases técnicas, mas é por essência livre", finaliza o pesquisador. Onde encontrar: Professor Ermínio Rodrigues Tel. (017) 232-9021
|
Marcadores: LINGUÍSTICA E LÍNGUA PORTUGUESA