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TORRE DE MARFIM

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Expressão metafórica para designar a atitude de indiferença e de distanciamento em que se colocam alguns escritores/artistas, numa recusa ostensiva do mundo exterior. O conceito surge ligado à figura do poeta isolado que contempla comodamente o mundo no refúgio da sua torre de marfim, numa postura aristocrática, egocêntrica e mesmo sonhadora. Alheio às controvérsias que agitam o seu tempo e repudiando o compromisso social, o poeta considera a sua arte o destino supremo que a vida lhe reserva.

Simbolicamente, a torre evoca Babel, porta do céu, fixada na Terra com o fim de restabelecer o elo primordial com (os) deus(es); pela brancura, conotar-se-ia com a pureza e o poder quase incorruptível do marfim. Contudo, embora construída com o propósito de elevar o homem à divindade, a torre acaba por perverter-se no seu contrário, símbolo do orgulho humano.

O conceito de torre de marfim é largamente difundido no século XIX ( por Sainte Beuve, por exemplo), no contexto antipositivista de reacção a uma certa tendência romântica para atribuir à arte um fim utilitário. Literariamente , o termo aproxima-se do princípio da arte pela arte, exemplificado no Parnasianismo, que dita os moldes de uma nova estética voltada para a sublimação da beleza. Neste ponto, Baudelaire, entre outros, defende que a poesia não tem outro objectivo senão ela mesma já que a arte é um mundo de perfeição fora deste mundo.

O poeta compreende que a realidade é imperceptível aos sentidos e o verdadeiro conhecimento exige, por isso, que desvie o olhar de tudo quanto o rodeia para descer dentro de si, onde mora o ideal desejado. A poesia torna-se, assim, elevação divina da alma do poeta, só possível numa espécie de vida contemplativa na procura desse absoluto. Surgem, naturalmente, elites intelectuais, associadas a um certo dandismo estético, isoladas sobre si mesmas, mas numa abertura para o infinito que radica no próprio “eu”.

A expressão torre de marfim adquire com frequência um sentido pejorativo, pois, face à impossibilidade de realizar o ideal, na procura desses “paraísos artificiais” sobrevem o cansaço, a frustração e o “mal du siècle” que entedia a vida. A torre torna-se, então, uma síndrome dos orgulhosos e misantropos que, fechados na sua torre, não reconhecem os perigos da literatura que se afasta da vida. É esta a crítica feita por F. L. Lucas em The Decline and Fall of the Romantic Ideal : «[…] but I doubt if […] Ivory Towers are healthy for poets in the end. Ivory Towers have Ivory Gates, through which false and vain dreams come. Such a life divides the poet from his hearers, it divides him against himself.» (Cambridge University Press, Cambridge, 1963, p.213).

O termo tem o seu uso literário, desde logo, em O Cântico de Salomão (7:4); surge ainda no poema «Esperança», de Almada Negreiros (“[...] A preguiça do céu entrou comigo / E prescindo da realidade como ela prescinde de mim./ Para que me lastimas / Se este é o meu auge ?! / Eu tive a dita de me terem roubado tudo / Menos a minha Torre de Marfim. / [...] Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.”) ; e também, entre outros, em A História Interminável de Michael Ende: « [...] A Torre de Marfim, o coração de Fantasia e a residência da imperatriz Criança [...] cujo ponto mais alto desaparecia nas nuvens.» ( 2ª ed., Editorial Presença, Lisboa, 1986, p. 22); é ainda fácil reconhecer o conceito na filosofia estóico-epicurista das odes de Ricardo Reis, por exemplo, no seu poema “Ouvi contar outrora , quando a Pérsia”.





Bibliografia :



F. L. LUCAS, The Decline and Fall of the Romantic Ideal ( 1963).



William WIMSATT e Cleanth Brooks, Crítica Literária – Breve História ( 2ª ed., s.d.)



Isabel Almeida

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