Sequência de palavras de forma a constituir uma frase, um conjunto de frases ou um pensamento acabado. Neste último sentido, uma simples palavra significativa: “Ninguém!” (por exemplo, resposta chave conhecida da peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa) pode constituir um enunciado. Podemos considerar as frases deste verbete enunciados escritos; os enunciados orais também seguem a mesma definição dos enunciados escritos. Os enunciados aqui expressos são gramaticais, pois respeitam as regras da gramática; um enunciado do tipo *deixei a tua casa de ir , considera-se agramatical (é assinalado pelo asterisco no início da sequência). Os enunciados podem ser classificados subjectivamente, por exemplo, o primeiro enunciado deste verbete é um enunciado linguístico e lógico; o enunciado “Alma minha gentil que te partiste” é literário e poético; o enunciado “O partido do Governo perdeu as eleições europeias.” é português, político e jornalístico, etc. Chama-se ao conjunto de enunciados que se sujeita a uma análise empírica um corpus. Não convém confundir enunciado com discurso, pois este é uma unidade superior tal como o enunciado o pode ser em relação à frase simples, embora seja possível afirmar que a palavra supracitada (“Ninguém!”) pode constituir um discurso de um único enunciado.
CORPUS; DISCURSO; ENUNCIAÇÃO; TEXTO
Bib.: E. Benveniste: Problèmes de linguitisque générale (1966); Enciclopédia (Einaudi), vol.2: "Linguagem - Enunciação" (1984); Jean Dubois: "L'énoncé et l'énonciation", Langages, 13 (1969); Jean Cervoni: A Enunciação (São Paulo, 1989).
Carlos Ceia
O enunciado
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Marcadores: LINGUÍSTICA E LÍNGUA PORTUGUESA
Sentimentalismo
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Termo de conotação pejorativa aplicado a algumas obras literárias de sensibilidade do século XVIII, nas quais estão patentes sentimentos de índole exacerbada, e/ou a crença exageradamente optimista, e consequentemente, irrealista na bondade natural do homem.
Estas características do sentimentalismo são visíveis especialmente no romance, na novela e na comédia sentimental, figurando também posteriormente na literatura romântica.
O vincado pendor sentimentalista patente na literatura de sensibilidade proveio de romances e novelas francesas, trazidas na época para Inglaterra. O tema típico destes romances sentimentais é o amor heróico entre membros da realeza, nomeadamente príncipes e princesas. A substituição gradual do romance pela novela, alargou o campo de acção amoroso para os membros da nobreza e posteriormente com Cibber e Steele para membros da classe média. As cenas amorosas entre os heróis pretendem provocar deliberadamente lágrimas no leitor.
As personagens da comédia sentimental são descritas de modo simplista, segundo a dicotomia Bem/Mal e o seu final é sempre feliz. A novela sentimental, por seu turno, põe em relevo padrões de moral e de honra procurando demonstrar que a explosão de sentimentos puros e naturais corresponde ao perfil do homem de sensibilidade. Quer a comédia, quer a novela sentimental agradavam à classe média emergente que via na expressão de sentimentos uma manifestação de virtude.
De entre as obras onde o sentimentalismo se encontra presente destacam-se, a título ilustrativo: The Man of Feeling (1721) de Henry Mackenzie; The Conscious Lovers (1722) de Richard Steele; The Enthusiast de Joseph Warton; A Sentimental Journey (1768) de Lawrence Sterne; The Deserted Village (1770) de Olivier Goldsmith; The West Indian (1771) de Richard Cumberland.
A literatura sentimentalista foi fortemente criticada e satirizada na época por Jane Austen em "Sense and Sensibility" (1811), marcando o início do declínio desta moda literária.
Este género tem sido também alvo de alguns comentários menos positivos por parte de alguns críticos literários modernos, que consideram a literatura sentimentalista eivada de lugares-comuns e de clichés, e a intensidade extrema patente nos sentimentos descritos poderá provocar no leitor moderno o efeito contrário àquele desejado pelo escritor do século XVIII.
O sentimentalismo é, assim, em larga medida definido pelas tendências culturais e literários de cada época.
Comédia SentimentaL; Sensibilidade; sentimentalidade
Bibliografia: L. I. Bredvold, The Natural History of Sensibility (1962); Maximillian E. Novak, Eighteenth Century English Literature (1983); Northrop Frye, Towards Defining an Age of Sensibility (1956); N. J. Bate, From Classic to Romantic (1946).
Paula Mendes
Marcadores: LITERATURA
Inconsciente
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
1. A acepção pré-freudiana. Sua origem provém do discurso da filosofia (de Herbart) e era, em alemão, designado pela palavra Unbewusst. No entanto, aquele dado desconhecido da consciência e/ou da racionalidade não teve relação alguma com o conceito freudiano, pois, Freud apenas o identificou com a mesma palavra.
2. O Inconsciente e o campo freudiano. O Inconsciente, enquanto conceito psicanalítico, surge no campo freudiano, ou seja, no campo matêmico-conceitual, inaugurado por Freud, ainda no século XIX. Alí, quando da publicação da Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos). Freud vê o sonho como sua formação "princeps". O autor austríaco, por esta razão, aproximou o Saber Inconsciente do sujeito da ciência por serem ambos, como a pulsão, acéfalos. Em Freud, esta categoria (Inconsciente) se hiperdetermina a duas outras, inicialmente, que são: a Histeria (1895) e a Transferência (1912). De seus célebres Estudos sobre a Histeria inferiu, para além da hipótese hipnótica, do método catártico de Breuer (Salpêtrière), a escuta dos lapsos inconscientes presentes nos relatos de suas analisandas histéricas e que seriam responsáveis pela conversibilidade comportamental e pela origem traumática da "sintomática" neurótica das mesmas. Desta "talking cure", isto é, "cura pela palavra" deduz, a partir de tê-la "aprendido" com as histéricas Anna O. e Elizabeth Von R., sua forma de acesso à escuta do Inconsciente que é denominada, por ser considerada seu estilo, de "Associação Livre". Contudo, o Freud, que, após 1920, abandonou seu "biologismo" e sua teoria traumática em favor do Édipo e da Castração, passou a considerar o Inconsciente como um efeito da Castração e da hiperdeterminação de seus dois procedimentos básicos: A Verdrangung (recalque originário) e a Verneinung (denegação). Caberá, pois, ao recalque, cujo efeito imaginário-objectal denomina-se repressão, afastar, desviar da Consciência a fantasia perversa por transformá-la em fantasia inconsciente que, por seu turno, irá universalizar o gozo como fálico. Caberá, então à Denegação que incide sobre a Bejahung (Afirmação Primordial) dizer, na forma de linguagem, não à função fálica, fazendo desta construção pré-consciente (em Freud) a condição do Inconsciente. Logo, para o citado campo freudiano, só haverá Inconsciente no ser que fala. Será, aliás, esta construção pré-consciente freudiana que servirá de modelo ao linguista Roman Jakobson (em seu célebre estudo sobre Afasia) para relacionar condensação e deslocamento (procedimentos do pré-consciente pertencentes à lógica do processo primário) e as figuras de retórica conhecidas como Metáfora e Metonímia. No entanto, o que irá caracterizar, indubitavelmente, o Inconsciente freudiano serão suas características metapsicológicas, e, dentre elas, sua conformação tópica. Para Sigmund freud o Inconsciente é um conhecimento científico porque metapsicológico, e, responderia, tomando na sua origem dezenovesca o sonho como "modelo" à intenção de cientificização possível do aparelho psíquico. Para tal, como qualquer outro conceito metapsicológico, seria dotado de: 1) Locatividade singular; por isto, é organizado em tópicas. Freud formulou duas tópicas a este respeito e pretendeu integrá-las em seu Resumo de Psicanálise nos anos ,0; 2) Economia, o que também se confirma, pois, nele a parcialidade pulsional incorporou a economia libidinal do mesmo modo que o fez o Masoquismo Primordial. Este é responsável pela incorporação da libido no circuito pulsional, que é parcial e econômico por restringir o prazer pelo desprazer; 3) e, por fim, a dinâmica, uma vez que nem interna e sequer externamente o Inconsciente é estático. Age sobre a Transferência que o atualiza e lhe é exterior, conquanto lhe seja forma de acesso, e, tomando-se o sonho como "modelo", vê-se a ação transformadora da elaboração secundária sobre o trabalho do sonho e ambos serem provocados pelo resto diurno. Logo, o caráter tópico do Inconsciente resulta, no pensamento de Freud, da influência diacrônica da Neurologia e da Psicofisiologia e tem, por efeito, a produção de uma Psicopatologia. Caracteriza a configuração do Inconsciente em camadas superpostas, conquanto hiperdeterminadas, e pretende "acomodar" os diferenciados efeitos de Das Ding (a Coisa freudiana), ou seja, o impossível objeto do Desejo, perdido para sempre, na acepção freudiana, e a simbologia da realidade pulsional. Quer-se com isto mostrar um funcionamento diferenciado dos efeitos da relação de princípios entre prazer e realidade. Esta preocupação em Freud remontava ao século XIX e com esta locatividade ele pretendia indicar um papel especial e singular do Inconsciente no aparelho psíquico. Já do ponto de vista do processo econômico do Inconsciente, este é responsável, no nível da realidade psíquica, pela circulação e repartição quantificável da energia pulsional. Considera-se, nesta característica, o investimento pulsional sobre o aparelho psíquico a partir de três procedimentos: a) sua mobilidade (que é efeito de sua dinamicidade); b) sua afetação no que se refere aos efeitos pulsionais do e no Inconsciente; c) seu contra-investimento, que por oposição, suscita a separação e age sobre a Neurose de Transferência (em seus mecanismos psíquicos) e constitui o princípio catártico da "ab-reação". E seu dado dinâmico significa, no texto freudiano, a dialética não-negativa do Inconsciente e, assim, irá qualificar o modo de ação permanente do Inconsciente a provocar a reação de uma força que lhe é contraria e incide sobre o Ego. Por isto Janet, relido por Freud, irá articular esta dinamicidade à origem inconsciente da "clivagem" do Ego. Mas, este termo como se sabe, antes de fazer parte da segunda (2) tópica do Inconsciente freudiano caracterizou, por diferença a um autoerotismo anatômico e biologista, o narcisismo dito secundário por Freud, por distinção ao outro, primário, tipificado pelo seu caráter auto-erótico. A articulação do Inconsciente com a pulsionalidade, dita, então, por Freud "pré-genitalidade da libido" é com a tópica do Inconsciente (Das Es), é de 1915, ao passo que a miragem especular do narcisismo secundário é datado e, com ela, a sua primeira Teoria do Ego, de 1914.
Todavia, inicialmente, para desenvolver sua hipótese tópica (locativa) e não a funcional (dinâmica e econômica), sendo ambas componentes da Metapsicologia Freudiana, Freud a formulou como sendo composta pelo Consciente, pelo Pré-Consciente e pelo Inconsciente. Do primeiro seriam afastadas as fantasias perversas, estas seriam reelaboradas pelos mecanismos de Condensação e Deslocamento (comuns ao processo primário, lógica do aparelho psíquico) denominados de "Regime do Inconsciente". Estes relacionar-se-iam, por seu turno, com a Neurose e com a Transferência. Assim, se uma imago coalescida se desfizer, por ação da condensação, sera inconscientizada; mas, se for fixada em sentido, será Neurose. O Mecanismo de Condensação, pré-consciente, é designado pela palavra alemã Verdichtung. Já o mecanismo de Deslocamento, também, pré-consciente, equivale à Transferência de sentido e não só estará na origem freudiana do termo Transferência (1912, Übertragung), forma de acesso e de atualização do Inconsciente, e como tal será antecedido (em Freud) pela categoria de Resistência (1895, Estudos sobre Histeria) mas também é responsável pela localização no Inconsciente, propriamente dito, do produto transformado da fantasia perversa. Ambos de forma hiperdeterminada compõem o pré-consciente. E o Consciente (vazio de sentido), o Pré-Consciente ("Regime do Inconsciente") e o Inconsciente (lugar para onde se desloca o não-exteriorizável da fantasia perversa), de maneira sobredeterminada, irão compor a 1º tópica freudiana. O termo Deslocamento é designado em Alemão pela palavra Verschiebung e é paradoxal porque se, por um lado, recalca, por outro, poderá permitir que se burle a censura. Mas será na Segunda (28) tópica do Inconsciente que Freud formulará sua, também, segunda teoria do Ego. Esta se compõe de Ego, Super-Ego e Id que estão hiperdeterminados. O Ego é desde o narcisismo secundário um campo imaginário (consistente) de miragem e sofre a ação do Super-Ego que é ali o representante não da repressão, como pensam alguns incautos, que também e ao mesmo tempo a vêem como sinônimo de castração, tida, neste mistér, como amputação imagética, e sim, da figura paterna, masculina, transmitida pela mãe, dita Desejo de Mãe, com valor de identificação viril. Sua ação é limitadora, recalcante e incide sobre o Ego "seccionando-o" em Ideal-de-Ego, que cumpre a função que acabamos de descrever, e Ego-Ideal que corresponde, atribuído ao falante e/ou a outrem, à imagem de semelhante. Já o mítico Id, que posteriormente será utilizado no Mal-Estar na Civilização de forma extensiva articulado ao Desejo e à agressividade (presentificando a Psicanálise na Cultura), é formado por Eros (que inclui PSICHÊ) e Tânatus, ambos em permanente tensão. E ai dar-se-á a presença, em seus efeitos, da Pulsão e do Narcisismo sobre o Inconsciente. O Masoquismo erógeno-pulsional presente, por ação do objeto pulsional, em Tânatus, será modificado pelo Masoquismo Primordial de que Narciso dotou Eros, por ação da Bejahung, e produzir-se-á no lugar da pulsional fantasia perversa, a universalidade da Fantasia Inconsciente a transmitir o gozo fálico. Por estas razões, Lacan escreverá a Fantasia Inconsciente com o mesmo matema (representação conceitual) da Pulsão e verá o Ideal de Ego como representante, através do Super-Ego, no Inconsciente, do lugar de Outro (A), ali Desejo de Mãe, e o dirá simbólico nesta representação do A (Outro) pelo acéfalo e pulsional sujeito do Inconsciente e da Enunciação (je), assim, este sujeito inscrever-se-á, por via já dita simbólica, no Desejo do Outro (A). Já o Ego-Ideal, por ser a representação Inconsciente, embora com efeitos de sentido, de consistência imaginária, do sujeito e do semelhante, quando na especular e imagética posição de objeto, por isto será imaginário. Mas, o Ego por cindir-se em ambos e situar-se entre o simbólico Ideal-de-Ego e o Imaginário Ego-Ideal habitará o sentido, pois este articula Simbólico e Imaginário. E o Super-Ego, nesta tentativa de articulação das duas tópicas, o que já nos remete ao Resumo de Psicanálise (onde o Ideal-de-Ego é simbólico ), registra-se no simbólico por ali representar os efeitos da Lei Paterna e Perseverante no Inconsciente, cabendo ao Id (Isso, Es) permanecer simbólico, já que o Inconsciente freudiano para Lacan é "simbólico puro", embora seja, inclusive, efeito de um simbolismo narcísico e pulsional. Resta-nos, por enquanto, dizer que segundo Sigmund Freud, o Inconsciente jamais foi considerado o objeto Real, epistêmico, ou o nome que se queira dar, da Psicanálise, pois nela a Coisa Freudiana (Das Ding, Projeto, Entwurf, 1896) é um objeto para sempre perdido do Desejo e que provoca o facto de haver, entre outras estruturas, o Inconsciente, por não haver, paradoxalmente, objeto que satisfaça o desejo humano, por isto dito histérico e insatisfeito, razão última, a seu juízo, de nosso mal-estar civilizatório.
3. O Inconsciente não freudiano: Jung, o surrealismo e o estruturalismo. Paralela e historiograficamente à obra freudiana surgiu, com ares de dissidência, a chamada Psicologia dos Símbolos e/ou Psicologia Profunda de Jung. Este autor lastreava sua concepção arquetipal de símbolo (s) numa lógica expressiva que, estilisticamente, se realizava por sinédoque ("pars totalis"). Desse modo, num raciocínio típico de uma lógica expressiva e substâncialista, lógica do silogismo disjuntivo, mostráva-nos imagens, "metáforas" que eram "expressões e/ou manifestações" de um imanentismo de quatro elementos básicos: terra, ar, água e fogo. Estas "metáforas imagéticas" atuavam como partes que expressavam a predominância destes ou de um destes elementos. E sua realização, próxima do símbolo figural de Goëthe, foi por Freud considerada um equívoco, uma mera manifestação conteudística e mística do Inconsciente. Isto malgrado e/ou apesar de Freud, então um jovem médico vienense, ter sido atraído para a questão do Inconsciente e, consequentemente ida Psicanálise apos assistir a conferência sobre a Filosofia Romântica da Natureza em Goëthe. E Jung foi inicialmente, mais até do que Fliess, mais do que Jones, e, obviamente do que o húngaro Ferenczi, tido, por uns tempos como seu discípulo dileto...
Já outra tentativa de se fazer passar pelo Inconsciente freudiano leva-nos ao encontro de André Breton e da francesa e surrealista "escrita automática". Esta também não foi considerada como pretendiam os surrealistas como equivalente ao funcionamento do Inconsciente freudiano. Não foi, pois, reconhecida como tal por Freud, este jamais a considerou, como o pretendido, como uma espécie de "gramática do sonho", sendo, pelo Mestre de Viena, até tida como mais próxima do Inconsciente arquetipal Junguiano. Aliás, à exceção de seu estudo sobre a Gradiva de W. Jensen, cuja imagem de musa foi cultuada, a juizo de Chadwick, pelos jovens surrealistas, o "gosto estético" de Freud era mais clássico: SÓFOCLES, SHAKESPEARE, THOMAS MANN, DOSTOIÉVSKI, H. HEINE, LEONARDO DA VINCI, etc. Entretanto, vai ser Jacques Lacan, ao estudar em sua tese de doutoramento as psicoses nos anos trinta, bem como o bovarismo (cf. A Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade), que se aproximará, não de Breton e de seu Carnets, mas de Salvador Dali e de seu "método paranóico". O incrível é que o excelente pintor surrealista Renée Magritte que, em manifestação estética da pulsão escópica "pictorizou" o freudiano Rochedo da Castração no seu quadro Castelo dos Pirineus, não parecia nutrir maiores simpatias pela psicanálise.
A próxima contribuição foi pós-freudiana, mas contemporânea à fundação do campo freudiano por Lacan. Este chegou mesmo a ter sua visão do Inconsciente freudiano confundida com esta concepção de natureza linguística, e, ter sido, apressadamente, malgrado seu respeito, discordância e oposição à teoria da Antropologia Estrutural de um Claude Lévi-Strauss, considerado como adepto e/ou integrante do "boom" do Estruturalismo, então em voga. Para a base formalista da linguística estrutural, que havia através da fonologia exportado seu modelo plausível para a Antropologia, o Inconsciente era uma forma implícita, desconhecido logicamente do falante e paradigmático. Mas seria, paradoxalmente, a sua lógica implícita que permitiria a dupla articulação da língua por um falante, língua entendida enquanto modalidade (estrutura) de linguagem, o saussureano dito: Linguagem a língua menos fala. Assim exportado, implícito e logicamente determinante o "Inconsciente estruturalista" tornava-se a condição da Linguagem, como se não fosse a linguagem uma formação do Inconsciente e sim ao contrário. Mas, para o Lacan do campo freudiano, a Linguagem é que era a condição do Inconsciente. Visto isto, constatamos que, por esta razão, tendo a lógica do pré-consciente como sua dinâmica, é que o Inconsciente terá a Linguagem linguagem como sua pré-condição. Lacan toma isto da teoria de Jakobson sobre A Afasia por transformá-la abdutivamente (Pierce). Pois, se para Saussure no dualismo indissociável do signo linguístico a palavra, signo verbal, fundava-se e fundava a imotivação do significante (por isto Roland Barthes, por exemplo, ao escrever sobre as relações entre Semiologia e Linguística, assume perspectiva oposta a de Saussure), para a Fonologia de Jakobson, vide conferência no M.I.T., seria o significante que fundaria a palavra. Lacan, então, estabelece (cf. Écrits, 1966) sua alteração do algoritmo sígnico de Saussure: S/s (significante sobre significado) e hiperdetermina na constituição das figuras reativadas da retórica (Metáfora e Metonímia) os mecanismos pré-conscientes de condensação e deslocamento. E, estamos, então, a um passo da inauguração da concepção lacaniana de Inconsciente conforme o campo do gozo (cf. O Avesso da Psicanálise), ou seja, o campo lacaniano.
4. O Inconsciente conforme Lacan: a fundação do Inconsciente-Real pelo campo lacaniano. Dito, de saída, "estruturado como uma linguagem", por tê-la como pré-condição, situado ao lado do cogito, do pensamento, articulando alienação, afânise e sentido, o Inconsciente freudiano será, inicialmente, para Lacan, puro simbólico. E ao lado da função e/ou lugar de Psicanalísta, das línguas, dos sintomas, dos chistes, dos "atos falhados" será considerado como uma das "formações do inconsciente". É tido como um dos quatro conceitos fundamentais da teoria freudiana por Lacan. Ele vaí-nos dizer que o Inconsciente é, então, de Freud, e, ele (Lacan) apenas o disse simbólico, ou seja, como já se disse, que tinha a linguagem como pré-condição. Vai fazê-lo em Bonneval (Colóquio) ao acrescentar, no pouco tempo que lhe deram para falar, que "o Inconsciente era o que faltava ao homem para restabelecer sua relação com a verdade" (não toda), disse também que sendo os Psicanalistas os destinatários do Inconsciente, por isto, dele faziam parte, até porque a Transferência é que era a atualização do Inconsciente. O Inconsciente, por ser Discurso do Outro (A), por ali ter que ser buscado o Desejo do Homem, daí o aforismo da terceira identificação ao objeto causa de Desejo (objeto a):" O Desejo do Homem é o Desejo do Outro(A), deve ser buscado na enunciação dos discursos. O Inconsciente no campo freudiano também caracterizava esse capítulo da história de um falante (sujeito) que é censurado por ser ocupado por um "fingimento" histérico (desejo insatisfeito) ou marcado por um espaço em branco (significante zero, vazio). E se é dito que o Inconsciente é o Discurso do Outro (A) é somente para que se indique, no mais além, a distinção entre o simbólico reconhecimento do Desejo e o neurótico desejo de reconhecimento. O Inconsciente é a exterioridade lógica do simbólico, da linguagem que, como pré-condição, faz do homem um "animal simbólico". Por esta razão toda a estrutura da linguagem, a ser descoberta pela experiência analítica, remete ao Inconsciente, que é, para Freud, o que dizemos. Nele, no Inconsciente, o sujeito fala, porque o símbolo o fêz homem. Parodiandose a Análise Leiga freudiana poder-se-ia dizer que a prática psicanalítica, do ponto de vista do Inconsciente, não deixa a representação de nenhuma de nossas ações fora do seu campo. Logo no Inconsciente freudiano haverá sempre a incidência de um significante novo. E serão o equívoco, a pluralidade de sentidos e a homofonia que, no nível do significante, o irão caracterizar. Por isto se o simbólico é a representação do Desejo no Campo do Outro (A), a lógica do Inconsciente, dita por Freud lógica do processo primário e/ou "Regime" do Inconsciente é para Lacan a lógica do significante. Por isso, o falante que é afetado pelo Inconsciente é o mesmo que irá constituir o sujeito de um significante, pois: a) explicita, nisto, que a linguagem é a condição do Inconsciente; b) e o saber Inconsciente nos demonstra que, em algum lugar, d'Isso, no Outro (A) se sabe. E aí, no Seminário, Livro 20, Encore (Mais, Ainda), o Inconsciente tem indicado o seu caráter real (impossível), não sem antes observarmos que ele testemunha um saber singular, no que este, em grande parte, escapa ao falante. Mas, voltando-se ao caráter real do Inconsciente, Lacan nos disse que este real aí em jogo é o mistério do Inconsciente, por sê-lo do corpo falante. Vai designá-lo pela homofonia "Pune-bévue" que é uma versão fonético-francesa do termo alemão utilizado por Freud: Unbewusst, Lacan ira dizê-lo real como o próprio significante. Até porque aplicase ao Inconsciente o dito pelo Mestre de Paris sobre o significante, ou seja, se ele é real, o real não é o significante. Neste momento dirá que o Inconsciente é de Lacan e que Freud fundou apenas um campo matêmico (conceitual). Articulará o conceito de Inconsciente, não só com a Transferência, mas também com o binômio Resistência/Desejo do Psicanalista.
Falta-nos agora falar das relações entre o Inconsciente real e a presença do Psicanalista. O Analista está presente em suas relações com o Inconsciente no lugar renegatório de objeto a, posto ser este perverso, uma vez que dali, a estrutura (real, simbólico, imaginário e sintoma (S) não se fecha. Deste lugar a posição do analista manifesta-se enquanto sintoma, lugar de entrelaçamento estrutural, 4º nó, suplência metafórica relativa ao Nome-do-Pai simbólico, 4º nó do gozo e faz emergir a dita função: Desejo do psicanalista. Será o objeto a (causa de Desejo) um dos conceitos próprios do campo do gozo, do campo matêmico fundado por Lacan, ao lado da ousia (incorporiedade) pré-socrática do falo, do(s) Nomes) do Pai e de (A) Mulher. E para o pensamento de Lacan conceituar antes de ser requisito da ciência e uma arte. Irá equivaler o conceituar ao sintoma, já que deve ser bem-dito, pois "ama-se o sintoma como a si próprio". Só a escrita (écriture), desde o estudo de Lacan sobre o symptôme (santificação do sintoma) em Joyce ("Le saint-Homme"), efeito de sublimação que é, torna-se a possibilidade e/ou a garantia do lugar de farsa ática que deve ser incorporado pelo Analista. Este, neste mistér, por sua vez, (ele) se irá distinguir do "fingimento" histérico, da autocracia autoral do Senhor (Mestre) e da impostura perversa. E se para Lacan o sublime, mítico e verdadeiro amor provocou o defrontar-se com a lírica e provençal arte cortesã do medievo, antes na obra freudiana, a autenticidade do amor era de transferência (suposição de saber). Mas, conforme a leitura de Lacan de um Genet nada santo, a questão desejante irá incidir sobre a perversidade ao revelá-la sob os auspícios da comédia em Aristófanes. Lacan, aliás, no Momento de Concluir (cf. Seminário inédito 1976) irá lamentar-se de o caminho freudiano para a Psicanálise ter sido trágico, deveria ter sido cômico (Aristófanes) e convocado, na sua perspectiva de degradação da cultura, a morte da História por Kójeve aposta à Antropologia do Desejo em Hegel.
Concluindo, dir-se-ia que a categoria de Inconsciente-Real articula-se com a função Desejo do Psicanalista, enquanto desejo de máxima diferença, inclusive sexual, por emanar de sua função sintomática, onde, por ficção, o sexo é sintoma quando não pertencente à mesma classe lógica do sujeito; assim o Homem tem como sintoma uma mulher por desejá-la sob o signo da diferença sexual (cf. Seminário: O Sintoma, 1975/1976, inédito). Isto leva o analista, no lugar de causa desejante, dita "causação" desejante a também articular-se, do lugar de semblante do Falo, à falta real (manque). Assim procedendo irá ofertar como suporte do mais-gozar do analisando o seu (do analista) desejo de máxima diferença, inclusive sexual, para que possa do Inconsciente (real) — L'une bévue, Unbewusst, destacar, como do analisando, porque originariamente proposto ao analista como mais-gozar, um gozo particularizado que terá valor de sintoma-real, só que "dublado" pelo simbólico, dito, então, S1 (significante-mestre), sintoma fundamental (sinthome). Esta é a significação possível do Inconsciente-Real produzido no campo do gozo, uma alíngua real (lalangue) no campo lacaniano.
ALTERIDADE; DIFERENÇA SEXUAL; IMAGINÁRIO; JOUISSANCE; OUTRO; REAL; SIGNIFICADO/SIGNIFICANTE
Bib.: FREUD, Sigmund. Obras Completas, vólume I, Editorial Biblioteca Nueva Madrid, traduccion de Luís Lopes-Ballesteros y de Torres, Madrid, 1967; 2.
FREUD, Sigmund. Obras Completas, vólume II, Editorial Biblioteca Nueva Madrid, traduccion de Luís Lopes-Ballesteros y de Torres, Madrid, 1968; 3.
FREUD, Sigmund. Obras Completas, vólume III, Editorial Biblioteca Nueva Madrid, traduccion de Ramon Rey Ardid, 1968;
LACAN, Jacques et alii. O Inconsciente, volume II, In--- VI Colóquio de Bonneval (organização Henry Ey) Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969, tradução de José Batista;
LACAN, Jacques. Las formaciones del inconsciente, Buenos Aires, 1970, traduccion de Oscar Masotta;
LACAN, Jacques. Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade, Rio de Janeiro, Forense (Universitária), 1 edição, 1987, versão de A. Menezes, M. A. Coutinho e Potiguara M. da Silveira Jr.;
LACAN, Jacques. Conferências de Imprensa realizadas em 21/10/74 no Centro Cultural Français, Roma, In --- Lettres de L'École Freudiene de Paris, Paris, 1974;
LACAN, Jacques. Conferênces et entretretiens dans les universités nord-américés, In --- Scilicet 6/7, Paris, Seuil, 1973, p.p. 5/63;
LACAN, Jacques, Televisão, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, Versão brasileira de A. Quinet, 1993
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre III - Les Psychoses (1995/1956). Paris, Seuil, 1981;
LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre IV. La Relation d'objet (1956/1957).Paris, Seuil, 1994;
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre VII - L'ethique de Ia psychanalyse, 1959/1960), Paris, Seuil, 1986;
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre VIII - Le Transfert (19601961), Paris, Seuil, 1991;
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro XV - O Ato Analítico (1967-1968), Rio de Janeiro, Takrus, 1993, versão portuguesa baseada na versão espanhola de Sílvia G. Espil;
LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre VI. Le Desir et Son Interpretacion. Seminaire inédit, 1959;
LACAN, Jacques. Le Seminaire, Livre XI - Les quatre concents foundamentaux de Ia nsvchanalvse (1964). Paris, Seuil. 1973,
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XVII. L'envers de Ia Psychanal rase (1969/1970). Paris, Seuil, 1991;
LACAN, Jacques. Le Seminaire. LivreXVIII. Le Sinthome (Le Savoir du psychanaliste), inédit, 1976;
LACAN, Jacques. Le Seminaire Livre XXIV - L'insu que sait de Pune-bévue s'aile à mourre, inédit, 1977;
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XX - Encore (1972/1973), Paris, Seuil, 1975;
LACAN, Jacques. Le Seminaire. Livre XXV - Le moment de conclure, seminaire inédit, 1977;
MASSON, Jeffrey Moussaieff (editor e organizador). A correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887/1904), Rio de Janeiro, Imago Editora, 1974, tradução de Vera Ribeiro;
McGuaire, Willian. Freud/Jung. Correpondência completa (1906/1914, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1976, tradução de Leonardo Fróes e Eduardo Augusto Macieira de Souza;
MENDONÇA, A.S. et alii. Os quatro (4) conceitos fundamentais em Psicanálise (1a parte), In --- O Ensino de Lacan, Rio de Janeiro, Gryphus (Forense), 1993, 1a edição, pp. 39/55;
MENDONÇA, A.S. et alii. Lacan e a metapsicologia: uma questão preliminar à cientificidade, In --- O Ensino de LacanIl, Rio de Janeiro, Gryphus (Forense), 1994, pp. 93/123;
MENDONÇA, A.S. A Presença do Analista: A Comédia e/ou o Sintoma. In --- A Transmissão Ano 5, n°6, 1977 (Boletim do Centro de Estudos Lacanianos, Instituição Psicanalítica, Porto Alegre, Rio Grande do Sul), Porto Alegre, Edições do CEL/Gryphus (Forense), 1997, pp. 53/113.
Antônio Sérgio Mendonça
Marcadores: DENSAS PALAVRAS
FUNÇÃO NARRATIVA (3)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
No quadro dos estudos no formalismo russo, Iuri Tinianov trabalha sobre a evolução literária, onde, tomando a obra e a própria literatura como um sistema, propõe que entendamos o dinamismo histórico da literatura como uma substituição de sistemas. Sistema e função são dois conceitos centrais na teoria formalista deste teórico: sistema é o conjunto de entidades organizadas, mantendo entre si relações de interdependência e que são ordenadas para obter uma finalidade; num sistema, cada elemento desempenha a sua função. Função é a possibilidade de um elemento entrar em correlação com os outros elementos de um mesmo sistema e, por conseguinte, com o sistema inteiro. Viktor Sklovskij exemplificou esta distinção com o sistema de eavesdropping que ocorre em várias obras de Charles Dickens com diferentes funções. Os conceitos de sistema e de função estão intimamente relacionados com outro conceito fundamental da poética formalista, a desfamiliarização: um sistema pode desempenhar uma função de desfamiliarização num dado instante, mas a partir do momento em que se torna familiar aos leitores perde esta qualidade. Dentro do formalismo russo, destaca-se ainda a proposta morfológica de Propp, aplicada ao conto maravilhoso, onde identifica um conjunto de trinta e uma funções narrativas. Estas são determinadas pela acção que as personagens realizam no desenvolvimento de uma intriga.
Claude Bremond desenvolveu e aperfeiçou o sistema morfológico de Propp, propondo que as funções narrativas se agrupassem em conjuntos de três, formando sequências. Roland Barthes traz uma nova proposta, imaginando a narrativa como uma grande frase que suporta funções distribucionais (unidades que funcionam ao mesmo nível) e funções integrativas (unidades que funcionam sempre num nível superior). No primeiro caso, exemplifica-se com as funções cardinais, isto é, aqueles acontecimentos nucleares de uma narrativa que a fazem efectivamente avançar; no segundo caso, ocorrem momentos de pausa, que tomam o nome de catálises. Jonathan Culler (1975, p.202) argumentou que o uso que Barthes faz do termo função não é muito feliz, tendo sido preferível a adopção do termo lexia, que encontramos em S/Z (1970). Uma lexia é aqui tomada como uma unidade mínima de leitura, um passo do texto que pode ser isolado pelo leitor em comparação com outras partes do mesmo texto. Na semiótica greimasiana, a função narrativa está ligada à actuação de actantes, de acordo com um modelo complexo de relações cognitivas e performativas.
CATÁLISE; FUNÇÃO MORFOLÓGICA; MODELO ACTANCIAL
Bib.: C. Bremond: Logique du récit (1973); Claude Chabrol et alii (eds.) : Semiótica Narrativa Textual (1977); Iuri Tinianov et al.: “Formalist Theory”, in Russian Poetics in Translation, nº4 (1977); Jonathan Culler: Structuralist Poetics: Structuralism, Linguistics and the Study of Literature (1975); Roland Barthes: “Introduction à analyse structurale des récits”, Communications, nº8 (1966); Viktor Sklovskij: The Mystery Novel: Dickens’s «Little Dorit», 1925, in Readings in Russian Poetics: Formalist and Structuralist Views, ed. por Ladislav Matejka e Krystyna Pomorska (1971).
Carlos Ceia
Marcadores: LITERATURA
Bucolismo
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Género literário sinónimo da poesia pastoril que respeita as convenções clássicas provenientes, sobretudo, das Bucólicas de Virgílio e dos Idílios de Teócrito de Siracusa. Este género enuncia um ideal de vida que canta as belezas da vida do campo, o espaço dos pastores, a ingenuidade dos costumes, a quotidiano tranquilo em simples contacto com a natureza. Trata também dos amores, alegrias e penas dos pastores que contrastam com os sobressaltos e inquietações da vida urbana.
A poesia bucólica é também conhecida por poesia pastoral ou pastoril. O pastor é o representante de um mundo natural, simples, cuja entrada corresponde invariavelmente a uma evasão, não só em termos de espaço (da cidade para o campo) como também em termos de tempo (do presente para o passado). Assim, há como que uma idealização do modo de viver campesino, onde se cria um ambiente imaginário de paz e perfeição, no qual não existe qualquer tipo de corrupção. Toda o cenário bucólico pressupõe a descrição de uma utopia passada. Esta idealização leva a que a vida campestre seja associada à Idade de Ouro (passado), altura em que o homem vivia em harmonia com a natureza e antes de sucumbir ao pecado do orgulho.
Outras imagens típicas deste tipo de poesia são: o pastor que descansa debaixo da faia e que medita sobre a musa rural; o pastor que toca a sua flauta redentora, que, por vezes, se envolve num concurso musical amigável com outro pastor; expressando a boa ou má sorte com a sua amada (má sorte esta que quebra a monotonia do ócio perfeito, pois provoca a infelicidade); o pastor que chora a morte de um pastor amigo. É também de notar que este tipo de literatura põe em cena figuras reais, tais como o próprio pastor ou os seus amigos, com a condição de estarem disfarçados, recorrendo para isso ao uso de anagramas.
O bucolismo poético teve muitos seguidores, nomeadamente na Idade Média, altura em que as imagens bucólicas servem o ensinamento cristão, isto porque Cristo era o Pastor e os homens o seu rebanho. Durante a Idade Média, Boécio, Dante e Chaucer são alguns dos escritores que retratam este modo de vida simples do pastor, modo de vida que é tido por uma prefiguração simbólica do mundo edénico. Nas pastorelas da poesia trovadoresca, podemos registar algumas insinuações bucólicas.
Já no Renascimento, com a poesia de Petrarca, Boccaccio (Ameto, 1341, e Ninfale Fiesolano, 1344-1346), Sannazzaro (Arcádia, trad. para castelhano em 1549), a poesia castelhana de Boscán e Garcilaso, as éclogas Basto e Montano de Sá de Miranda, a poesia de Bernardim Ribeiro e as Rimas de Camões, entre outros, esta temática é ainda adaptada a escritos satíricos e alegóricos, como por exemplo The Shepherd’s Calendar (1579) de Spenser, no qual o mundo pastoral clássico é idealizado para os pastores ingleses. Generaliza-se também a prática de representação dramática de éclogas nas principais cortes europeias. O próprio Gil Vicente deve a inspiração dramática às éclogas de Juan del Encina (Cancionero, 1496). A écloga é a forma literária preferida dos poetas renascentistas que trataram de temas bucólicos.
O mundo pastoril vai oferecer ao homem renascentista um refúgio, um mundo utópico paralelo à sociedade real onde pode haver uma dedicação exclusiva ao ócio. É nesta época que se desenvolvem as cidades, fenómeno que arrasta consigo o sentimento de nostalgia pela simplicidade e tranquilidade da vida rústica. As convenções pastoris são de tal forma populares que vão influenciar outras formas literárias como as novelas (por exemplo, a Lusitânia Transformada, de Fernão Álvares do Oriente, a Consolação às Tribulações de Israel (1533), de Samuel Usque e a trilogia de Francisco Rodrigues Lobo A Primavera, O Pastor Peregrino e O Desenganado, 1601-1608). A célebre Menina e Moça (1554), de Bernardim Ribeiro tem também ingredientes bucólicos, embora entre na categoria de “novela sentimental”.
No neo-classicismo e no romantismo, assiste-se a um afastamento deste tipo de literatura gasta pelos seus convencionalismos. Apesar disto, há um reencarnar do pastor no herói romântico.
No século XIX e XX, não vamos encontrar qualquer “diálogo de pastores”, apesar dos anseios humanos serem os mesmos. Podemos detectar temas bucólicos nos romances de Júlio Dinis, em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, na poesia de Cesário Verde, João de Deus, Cecília Meireles e de Miguel Torga, e nos romances de Aquilino Ribeiro.
Na sua acepção moderna, o termo foi expandido de diferentes maneiras: em Some Versions of Pastoral (1935), William Empson defende que a criação pastoril é aquela em que há um contraste entre a vida simples e a vida complexa, estando a vantagem do lado da primeira. A vida simples pode, no entanto, ser não só a do pastor mas também a da criança e é usada como sátira às classes mais altas da sociedade. Outros críticos passam a classificar de bucólica qualquer obra que represente uma fuga à vida quotidiana para um local distante ou então, pode aplicar-se a qualquer poesia com um pano de fundo rústico.
ÉCLOGA; pastoral
Bib.: Andrew V. Ettin: Literature and Pastoral (1984); Bryan Loughrey: The Pastoral Mode (1982); Charles Segal: Poetry and Myth in Ancient Pastoral:Essays on Theocritus and Virgil (1981); David M. Halperin: 1952-BeforePastoral: Theocritus and the Ancient Tradition of Bucolic Poetry (1983); Dominico de Robertis: «Aspects de la formation du genre pasroral en Italie du XVe siécle», le genre pastoral en Europe du XVe au XVIIe siécle (1980); Flávio Henrique Vara: «Virgílio e a Écloga Portuguesa quinhentista» (1963);Francisco da Costa Marques: Camões: Poeta Bucólico (1939); Herman Iventosch : Los nombres bucolicos en sannazarro e la pastoral espanõla: Ensayo sobre el sentido de la bucolica en el renascimiento (1975); Helen Cooper: Pastoral: Mediaeval into Renaissance (1977); José Augusto Cardoso Bernardes: O Bucolismo Português: A Écloga do Renascimento e do Maneirismo (1988); Lawrence Lerner: The Uses of Nostalgia Studies in Pastoral Poetry (1972); Manuel da Silva Gaio: O Bucolismo, vol.1: Bernardim Ribeiro (1932); Maria do Céu Amaral Fortes de Fraga: Camões: Um Bucolismo Intranquilo (1988); Marcial José Bayo: Virgílio y la pastoral espanõla del renascimiento (1970); Michael C. J. Putman: Virgil’s pastoral Art: Studies in the Eclogues (1970); Morton W. Bloomfield: “The Elegy and the Elegiac Mode: Praise and Alienation” in Rennaissance Genres: Essays on Theory, History and Interpretation (1986); Peter V. Marineli: Pastoral (1982); Rita Mamoto: Arcádia de Sannazaro e o Bucolismo (1996); Vitor Manuel de Aguiar e Silva: Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa (1971).
Carlos Ceia
Marcadores: LITERATURA